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Estórias D'um Raio

O lugar onde imagens peculiares, sem sentido aparente, ganham uma história que justifica ou realça a sua importância. Como que do NADA conseguimos criar ALGO?


03.08.25

NOTA: o comunicado apresentado em seguida, é classificado como de MÁXIMA URGÊNCIA, pelos órgãos de soberania da Câmara Municipal de Fanulha.

 

Caríssimos fanulhenses,

Como já é de conhecimento coletivo, o departamento pediátrico do Hospital Central de Fanulha, passa por graves problemas de sobrelotação, graças ao alto fluxo de utentes que solicitam os serviços. Tal aumento deve-se a um movimento histórico e peculiar da nossa comunidade. A massiva aceitação dos jovens casais do concelho pela tendência viral, iniciada na rede social TikTok, “Menos Digital, Mais Real”.

O movimento promove que os jovens entrem num período de “desintoxicação” das redes sociais e dos restantes meios digitais. Como alternativa, procura que optem pela utilização dos meios de comunicação existentes antes da forte dependência da energia elétrica.

Como consequência da alta adesão, o número de gastos energéticos diminuiu drasticamente – o que, até certo ponto, se pode dizer ser algo positivo – no entanto, em contrapartida, a tendência para o registo de novas grávidas disparou assombrosamente. Segundo estudos realizados por professores e alunos da Universidade de Fanulha, comprovam que ambas as tendências estão fortemente ligadas.

Numa tentativa de prevenir o colapso do serviço público e privado de pediatria de Fanulha, além de manter a atratividade dos investidores das áreas da energia e da comunicação no concelho, a Câmara Municipal oferece a todos os seus munícipes, uma hora de televisão grátis. Para tal, existiram espaços coletivos espalhadas por todo o perímetro do concelho, com programação alternativa nos destintos postos. Desde o noticiário municipal, à dramaturgia cinematográfica, com novelas idealizadas e concebidas por munícipes, tais como: “Pernas, Para Que Te Quero”, ou então “Os Amantes de Fanulha”, passando pelo entretenimento lúdico de programas como: “Quem Quer Casar Com o Padeiro”.

Caros fanulhenses, queremos um município com melhor qualidade para TODOS! Nos momentos mais complicados, TODOS devemos unir-nos em prol do bem comum, do bem de Fanulha. No início será difícil, mas verão que o sacrifício valerá a pena!

Funalhenses, nunca se esqueçam: para tornar o problema menos complexo, basta que tenham menos noites de sexo!

 

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17.05.25

Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze…

Quando não consigo adormecer conto estrelas à espera de que o sono me chegue. Não é uma tendência de agora, já desde pequeno que a pratico.

Trinta e cinco, trinta e seis, trinta e sete, trinta e oito trinta e nove, quarenta, quarenta e uma…

Já experimentei contar imensas coisas: frutas, casas, árvores, barcos, aviões, postes de alta tensão, carros, comboios, etc.. Uma infinidade de coisas! Infelizmente, nunca nenhuma me resultou. Distraía-me sempre por alguma razão e não funcionavam. Desde então, procuro a coisa certa a contar, aquela que me ajudará a adormecer num instante!

Quinhentas e cinquenta e sete, quinhentas e cinquenta e oito, quinhentas e cinquenta e nove, quinhentas e sessenta, quinhentas e sessenta e uma, quinhentas e sessenta e duas…

A primeira experiência que tive foi com ovelhas. Imaginava um vasto prado verdejante, um limpo céu azulado e uma cerca acastanhada muito extensa. As ovelhas começavam, uma por uma, a saltar de um lado para o outro. Após não muito tempo, acabei por desistir de as contar. Imaginava-as de lã branquinha a saltarem uma atrás da outra e, de vez em quando, apareciam, como que de surpresa, ovelhas com lã de cores diferentes (castanhas, pretas, amarelas), o que fazia com que direcionasse o meu foco para apreciá-las e perdia a conta de quantas ia. Assim, tinha de voltar a contar tudo desde o início… uma e outra vez…. Acabei por desistir.

Duas mil novecentas e oitenta e duas, duas mil novecentas e oitenta e três, duas mil novecentas e oitenta e quatro, duas mil novecentas e oitenta e cinco…

Após várias tentativas, passei para as nuvens. Imaginava um gigantesco céu azulado e, gradualmente, apareciam uma por uma. Pensei que seriam mais fáceis de contar, afinal, são maiores e não variam de cor, apenas de tonalidade, mas enganei-me redondamente. As diversas formas em que surgiam desviavam a minha atenção na tentativa de descobrir aquilo que representavam, ao invés de quantas eram. Lá tinha eu de recontá-las inúmeras vezes… acabei por desistir.

Dezoito mil quatrocentas e trinta e nove, dezoito mil quatrocentas e quarenta, dezoito mil quatrocentas e quarenta e uma…

Por fim, lembrei-me de contar as estrelas. Não mudam de cor e não alteram a sua forma, apenas têm mais intensidade, ou menos, por isso, não seria possível me distrair. O objeto de contabilização perfeito! Assim pensava eu… como diz o outro, “nem tudo são rosas”. Com a densa iluminação que as grandes cidades emitem de noite, essa massa de luz faz com que seja difícil contabilizá-las. Os brilhos difundem-se e estas vão desaparecendo no grande teto escuro que é a noite.

Novecentas e noventa e nove mil novecentas e noventa e sete, novecentas e noventa e nove mil novecentas e noventa e oito, novecentas e noventa e nove mil novecentas e noventa e nove… e … já não dá para distinguir bem… espera… esquece, não dá.

Bem, lá tenho eu de voltar a contar do início. Mas só o farei amanhã, que o sol já começa a raiar. Amanhã descobrirei algo novo para contar!

 

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04.04.25

A estatuária clássica é definida por três pilares fundamentais: BELEZA, PERFEIÇÃO e SIMETRIA. Com o tempo, esses conceitos foram se aprimorando, até que, um "BOOM" se deu com o despertar da Era Vanguardista. As perceções cambalhotam escadaria abaixo até os dias de hoje, sem fim à vista.

“SHAKE IT, SHAKE IT, SHAKE IT!”, isto é o que a moda precisa. Os modelos e padrões utilizados hoje, parecem pneus de camiões de rodagem internacional, gastos até ao arrame! É preciso INOVAR, é preciso CHOCAR, é preciso “SHAKE IT”!

A primeira edição do “Monumental Fashion Week”, promete ser tudo isso e muito mais! A união entre a escultura e a moda, duas artes que prometem redefinir os conceitos do CONCEPTAUL, do INDEFINIDO e do EXTRAVAGANTE.

O público quer sentir-se num LEVEL UP.

O público quer ter algo para criticar.

O público quer comer camarões sem o fiozinho de cocó.

O público quer absorver extravagância.

O público quer exprimir-se em língua estrangeira para aumentar o status. “Wow… that was so… wow! No words, no words!”.

O público quer ter orgasmos visuais com algo que não compreende patavina.

O público quer conteúdo para as redes sociais.

Minha gente, WELCOME TO THE FUTURE!

 

#newconcepts #levelup #fashionlover #wow

 

Tipo... estamos, tipo... lindas!.png

 


01.04.25

O valente Arnaldo, guerreiro de espada à cintura, percorrem vales e montanhas em busca do “Pergaminho da Juventude”, documento lendário que contém a fórmula mágica para juventude eterna. Durante dias, semanas, meses, montado na sua mula de três patas, desbravou caminhos estreitos consumidos pela vegetação densa. Incessantemente, percorreu quilómetros à procura do tão desejado tesouro. Estivesse chuva, vento, frio ou calor extremos, nada impedia a sua empresa.

A procura era imparável, mas nunca o destino se encarregava de o presentear com tal achado. Um certo dia, a coitada da mula, já exausta de tanta caminhada, fraquejou da pata dianteira direita e ambos caíram ribanceira abaixo, acabando rendidos no fundo garganta do vale.

Arnaldo, inconformado com a derrota eminente, levantou-se, carregou a sua mula às costas e continuou a sua viagem. Um percurso hostil e traiçoeiro, que, apesar da dificuldade, não secou a sede do nosso herói.

Cansado e esfomeado, chegou a um ponto desesperante, um caminho que bifurcava. Qual fosse o lado que escolhesse, a sua decisão deveria ser certeira, caso contrário, as energias já não lhe restariam para corrigir com a segunda opção. Desesperado, ajoelhou-se e brandou aos céus:

- Valentes montanhas que tocais as nuvens, poderoso vale que cravaste a tua presença na Natureza, elucidai-me com a resposta correta, pois nem eu, nem a minha mulinha, aguentamos mais este sacrifício!

De repente, fortes ventos começaram a descer vale abaixo. Arnaldo agarrou-se à mula de forma a se protegerem. Trovões ecoavam nas montanhas e, de um momento para o outro, como por magia, o dilúvio acalmou e um som celestial começou a emergir do alto dos picos. O nosso guerreiro, curioso, levantou a face de modo a compreender de onde vinha tal cantar. Por entre as montanhas, surgiu uma luz divina, acompanhada por uma voz que emitia a seguinte mensagem:

- Valente guerreiro, tu e o teu escudeiro enfrentaram caminhos vertiginosos, perigos constantes e a morte iminente para cederem numa simples escolha de esquerda ou direita? As dúvidas mais simples, em momentos mais extremos, ganham uma outra dimensão. Por mais forte que sejas, nunca subestimes o poder do teu adversário, porque ele aparecerá quando menos esperares e quando a tua fragilidade vier ao de cima. A valentia, a sabedoria e a paciência são determinantes em tais momentos.

Perplexo com tal mensagem, Arnaldo levantou os seus braços ao alto e respondeu:

- Sábia montanha, agradeço-te pelo conselho precioso! E a minha mula continuaremos a nossa jornada em busca do nosso objetivo, custe o que custar!

Após um breve silêncio, uma nova mensagem surge:

- O “Pergaminho da Juventude” não passa de um mito! O verdadeiro tesouro está em aproveitar a juventude que te é oferecida e se gasta, não aquela que almejas adquirir, enquanto desperdiças a que tens.

 

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29.03.25

Eça de Queirós, um dos grandes nomes da literatura portuguesa, criou romances até hoje eternizados na nossa memória coletiva. Títulos com O Primo Basílio, O Crime do Padre Amaro e Os Maias, são obras estudadas nos ensinos básico e secundário, estabelecendo assim pelo seu trabalho literário uma ligação afetiva por uns e um repúdio total por outros.

Antigo estudante de Direito na Universidade de Coimbra, local onde imagino ter causado um furor com a sua passagem. Tendo em conta ao seu conhecimento da língua e com base nas histórias que criou, numa cidade em que SAUDADE, é a palavra de ordem, creio eu, que deixou muita SAUDADE às Tricanas de Coimbra, com a sua partida – as suas descrições levavam ao êxtase, com tanto pormenor!

Uma época em que os dotes de engate tinham classe. Uma pessoa tinha de se esforçar para cativar uma outra e inventava métodos criativos para tal. Cartas, serenatas, encontros minuciosamente planeados, namoricos às escondidas, entre outras formas. Hoje em dia, tais dotes passaram à simplicidade e ao oferecimento que se vê. Felizmente, ainda existem algumas almas que se salvam dessa generalidade.

 

Ó Eça! Faz mais uma das daquelas descrições qu

 


24.03.25

ATENÇÃO: Nos próximos segundos, o espetador será confrontado com a publicidade de um produto incrivelmente BOM, que lhe revolucionará os sentidos da precessão. O fabricante aconselha que se sente, confortavelmente, e que tenha consigo um copinho com água com açúcar. Não nos responsabilizamos por desmaios, ataques de coração, paragens respiratórias e mortes. Obrigado.

Sente-se em baixo? O cansaço do dia a dia está a acabar consigo? O seu corpo já não dá para mais? A mente tampouco responde corretamente? O que desejava era tirar umas férias, não é? Dubai… Maldivas… Ilhas Faroé… o bom é que sonhar é barato, já a viagem…, não é bem assim…. Então, em vez de uma viagem, que tal umas sessões de relaxamento e de massagens. Uhhh…, parece ser uma boa escolha! Faz lembrar os vídeos que encontramos nas redes socias de banhos térmicos dos países nórdicos. Uhhh…, que maravilha! Aquelas poças e piscinas que chamam por nós… ai, que bom que é… só de pensar já dá vontade de entrar de cabeça numa delas! Haverá algo melhor neste mundo? Sim, há e pode ter em sua casa!

Não se apoquente mais em sonhar com a banheira de massagens perfeita. Com a BANHOBOCK, o seu desejo é agora uma realidade! Uma banheira que combate três problemas de uma só vez:

  • Massaja dos pés à cabeça;
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Uma invenção incrível! Além do mais, é recarregável! De que é que está à espera? Contacte-nos já! Encomende a sua BANHOBOCK pelo site www.banhobock.pt e receberá de oferta 5 anos garantia. Não perca mais tempo e presenteie o seu corpo e alma com o devido tratamento!

ATENÇÃO: BANHOBOCK é limitada ao stock existente. Na compra da BANHOBOCK, não estão incluídas as garrafas relaxantes (cerveja, vinho, destilados, etc.), a água, a canalização, as torneiras e os suportes ao chão. Todos estes produtos poderão ser encontrados para compra separada no nosso site. A BANHOBOCK faz a instalação da sua banheira, mediante o pagamento extra pelo serviço. A BANHOBOCK faz a manutenção da sua banheira, mediante o pagamento extra pelo serviço.

BANHOBOCK, a banheira perfeita EXISTE!

 

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22.03.25

Tocam as Trombetas de Jericó. Um som tão forte e tão estridente que até o inanimado se mexe. O fim do mundo se aproxima.

Humanos, animais, plantas, microrganismos, TODOS sentem a quilómetros de distância as vibrações. Do mais alto cume, às mais profundas grutas, as vibrações não param. O fim do mundo se aproxima.

Como seres celestiais, as aves, em bando, coreografam lindas danças no céu. Um efeito natural que simboliza a chegada do mau agoiro. Uma massa mutável, composta por vários pontinhos que ganham força sobre as nossas cabeças. TODOS dirigem os seus olhares para o céu. O fim do mundo se aproxima.

As mensageiras circundam o epicentro do abalo, o ponto onde se concentra toda a energia. Um local instável e perigoso. Quem tem coragem de lá se aproximar? Há que impedir o fim do mundo!

Quem se sacrifica? Quem não teme em ficar olhos nos olhos com a MORTE? Ninguém, pois claro. O ego não é superior à vontade de viver.

Após muita discussão, a sentença é ditada, o sacrifício é anunciado. Jorge é o escolhido. Homem de estatura pequena, barba por fazer, tem os dentes tortos, perdeu o dedo mendinho a descascar uma maçã, desempregado e gosta de assistir ao resumo diário dos reality shows antes de adormecer. O povo grita:

- Vai, Jorge, vai que o fim do mundo se aproxima!

Lá vai ele sem olhar para trás, firme contra aqueles que ditaram a sua morte. Uns minutos depois, retorna. Sobreviveu ao monstro! Com ele, carrega a seguinte mensagem:

- Caros Irmãos, não vos deveis afligir mais. A perigo acalmou! As energias voltaram a equilibrar-se. Eu vi qual foi a causa dos nossos temores. Vi com estes olhos que a terra há de comer!

E o povo. em coro, pergunta:

- O que viste Jorge? Que Inferno passou diante dos teus olhos?

Então, Jorge responde:

- A energia mais poderosa que as bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki combinadas, mais vigorante que uma erupção em Krakatoa, veio do Sr. Roberto, que vive ao lado da igreja de Santa Cecília, que comeu uma dose extra da feijoada especial que a sua esposa lhe preparou e não conseguiu controlar as suas flatulências.

A população fica abesbílica. Os seus medos de extinção sobressaíram-se perante flatulências descontroladas. Então, Jorge completa:

- Caríssimos, lembrem-se que a nossa sobrevivência foi salvaguardada por pouco. Por sorte, uma grande massa de gás nocivo não nos atacou. Se tal tivesse acontecido, neste exato momento não existiria ninguém de pé para contar tal história às gerações vindouras. Agora, podeis dizer de peito cheio: “Eu sobrevivi ao fim do mundo!”.

 

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18.03.25

Na arte de comercializar produtos e serviços, há que saber cativar o freguês. Apresentar propostas que lhe chamem à atenção, tanto pelo sentido estético, como pela necessidade, ou então, pela ilusão dessa mesma necessidade. As grandes corporações são especialistas no modo de manipular os sentidos dos seus clientes – reparem, por exemplo, se os centros comerciais estão vazios.

Com o aumento generalizado dos preços, várias técnicas são utilizadas para ampliar o leque de consumidores: descontos temporários, métodos de publicidade agressiva nos mais diversos formatos, elementos diferenciais no mercado e os pacotes, ou redução do preço pela venda em grande volume.

Para exemplificar este último tópico, pergunto quem nunca foi a uma padaria e enfeitiçou-se pela promoção “café + pastel de nata”? – podem me atirar as pedras, porque sou culpado!

Com destaque para o setor da restauração, o conhecido “menu do dia” é um método fantástico de vendas – vendedor e freguês acabam satisfeitos. Com o aumento constante do preço dos alimentos, a certa altura, tais menus tornam-se insustentáveis, tanto para quem vende, como para quem consome. Como já é sabido, o comerciante está ali para lucrar e, se os custos de produção, ou de armazenamento, aumentam, será o consumidor a sustentar o acréscimo do valor. Como se costuma dizer, “quem quiser, que pague!”.

Há não muito tempo, existiam estabelecimentos no meio das cidades com menus a preços acessíveis, o que ajudava os trabalhadores com dificuldades de almoçar em casa entre turnos. Encontrar locais assim em 2025, é igual a procurar uma agulha num palheiro! Até um jovem pode dizer que sente saudades de ir a um desses estabelecimentos e com 10€, comer prato principal, sobremesa, mais bebida e café e ainda ficar com troco. Hoje, com 10€ mal dá para pagar o prato principal…

Ainda é possível encontrar meia dúzia de tabernas que continuam tal prática, mas é certo que já têm os dias contados – as regras do mercado são impiedosas.

Também é de mencionar que os pratos têm ficado cada vez menos compostos. Até parece que os restaurantes estão todos a adotar o conceito da cozinha requintada e experimental, com pratos para degustação. Lá no fundo, a “degustação” transforma-se em “desgosto” pela incomparável qualidade das técnicas aplicadas e o sabor consequente. Por outras palavras, a qualidade é básica e com menos comida no prato – como diz o povo, “não dá para a cova de um dente”.

A solução para combater esta problemática e reduzir custos é munir-se com marmitas. Se não, terá de sucumbir aos preços praticados pelos restaurantes. Se estão à procura de emagrecimento, a segunda opção, com certeza, fará emagrecer a vossa carteira.

Imaginem a seguinte situação: está na hora do almoço, esqueceram-se de levar a marmita convosco e não têm tempo de ir a casa almoçar. Dentre as opções de não almoçar, ou almoçar num restaurante, optam pela segunda proposta. No restaurante, depararem-se com a promoção “sopa do dia + carcaça = 20€”. Qual é a primeira pergunta que vos vem à cabeça? A minha é: “será que a bebida está incluída na promoção?”. Na pior das hipóteses, até o café é pago à parte e custa 3€ – isso sim é o que eu digo ser uma “enra****** à maneira”!

 

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17.03.25

Começam os cantares,

festas e bailaricos.

Enquanto o sino toca,

já se abrem os toneis de vinho.

 

Doces, salgos, frios e quentes.

Há oferta para todo o freguês.

O grande problema da festa,

é que não dura todo o mês.

 

Com saltos e piruetas,

o povo exibe os seus encantos.

Quando o vinho chega à cabeça,

fazem substituição a um canto.

 

A cultura de um povo

está enraizada na sua TRADIÇÃO.

Avós, pais, filhos e netos,

gerações com o fogo no coração.

Aqueles que mantém a chama forte,

que cose a espetada e o saboroso pão.

 

Por mais, ou menos, ativos que sejamos na sua preservação, a TRADIÇÃO é um elemento fundamental na identidade de um povo. Atividades e crenças preservadas, de geração em geração, que carregam a alma e a experiência ancestral de um povo.

Para os portugueses, uma boa tradição tem de envolver comes e bebes – caso contrário, inventam alguma forma de incorporar estes elementos. Por esse motivo, a época de verão é uma das favoritas do ano, pelo fervilhar de festas populares de terra em terra – se é para comer, beber e bailar, o indivíduo vai festejar, não importa onde seja. Os povos latinos são conhecidos pela sua "veia festeira" e o português não escapa dessa genética.

De forma acidental, ou por força maior, o surgimento das tradições é bastante dúbio.

  • Porquê fazemos o que fazemos?
  • Como surgiram?
  • Quem teve a ideia de começar?
  • Qual a pertinência da sua continiação na atualidade?

Questões que nos passam ao lado e que, de repente, somos abarroados com tais pensamentos. Por exemplo: na Madeira, quem foi que se lembrou de enfiar nacos de carne num espeto de pau de louro? E porquê? Essa resposta é me desconhecida e acredito que para grande parte dos madeirenses também o é. Há que concordar que sabendo, ou não, da história, esta tradição quebra as barreiras das classes sociais. Seja pobre, seja rico, madeirense que é madeirense, gosta de uma boa espetada em pau de louro – se for num convívio na serra, fica ainda mais saborosa.

 

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14.03.25

Estimada Suzete,

Em primeiro lugar, espero que esteja tudo bem contigo. Já faz algum tempo desde a última que estivemos juntos. 10, 15 anos? Já não sei ao certo. Em boa verdade é que o destino tratou de nos enviar por caminhos bastante diferentes um do outro.

Acredito que te deves estar a perguntar, “o que é que lhe deu na cabeça para se lembrar de mim, após este tempo todo?”. Sabes, nunca ninguém se esquece de alguém por completo – quem contrariar esta afirmação está a mentir, ou a sofrer de autoengano. Apesar das ocultações do nosso cérebro, por vezes, intencionalmente provocadas – como no nosso caso –, existem momentos, ou sensações, que, por mais pequenos que sejam, reativam essa memória. Foi exatamente o que me aconteceu.

Estou de mudança. Partirei para Vigo, por questões profissionais. Enquanto encaixotava os meus pertences, num canto bem escondido, encontrei um álbum de fotografias – genuinamente, já não me lembrava que existia. Ao folhear, nostalgicamente, todas aquelas fotografias, deparei-me com uma em especial – essa mesmo que te envio uma cópia. Sabes que fruto é? Um tabaibo – ou como dizem os continentais, um “figo da índia” –, contudo, numa composição inédita. Dois frutos que se uniram num só e que, por coincidência, formam o símbolo do AMOR.

Ao me deparar com tal imagem, foste a primeira pessoa que me veio à cabeça. Uma memória das profundezas do meu inconsciente. Associo-a à Suzete do passado, e por consequência, ao “nosso passado”, visto que uma coisa influência a outra. Com a seguinte filosofia, acrescento: “para conseguirmos alcançar a doce poupa do precioso tabaibo, fruto que cresce e se desenvolve em locais e condições áridas, primeiro temos de ser ágeis na remoção da sua casca repleta de espinhos – tarefa nada fácil. Quando, finalmente, chegamos ao objetivo – já com vários espinhos enfiados na mão, independentemente das proteções utilizadas –, colocamos na boca o tão desejado fruto e assim que sentimos a sua textura, apercebemo-nos do erro em que caímos. Muita semente, pouca poupa. Depois, já que tivemos o trabalho de colher e descascar o fruto, não vamos desperdiçar, não é? Então consumimo-lo mesmo com o efeito desconfortável das sementes a tilintarem entre os dentes. Se consumirmos em excesso, existe o risco de nos dar uma diarreia daquelas complicadas e será como certo as nossas visitas assíduas, pelos menos de dois a três dias, à casa de banho.”

Para concluir, foi um gosto voltar a contactar contigo e conseguir expelir estas últimas sementes que me estavam encravadas na garganta. Como precaução, peço que nunca te esqueças: “tabaibo em excesso faz mal”.

Deste indivíduo que em tempos foi algo para ti,

Carlos Jorge de Sousa

 

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